Nota:
esta e as paginas seguintes desta seção foram extraídas do próximo livro a ser
publicado por Swami Sarveshwarananda Giri “
Estórias sobre Vidas
Sagradas:
Esboços
Biográficos
dos Grandes
Sábios
e Místicos
de Todo
o Mundo”
a ser publicado pelo a Missão
Hariharananda.
Sábios e Escrituras
Está explicado nos Upanishads
que no início Deus estava totalmente só, como Um, sem manifestação. Além disso,
Ele desejou experimentar a alegria através de Sua própria multiplicidade. O Senhor
projetou uma infinitesimal parte de Si mesmo como o universo manifestado, então,
cobriu-Se com o véu de maya
para que Ele, em Suas incontáveis formas, estivesse esquecido de Sua essência
divina e aos poucos despertasse do sonho material para a realidade espiritual.
Muitas pessoas têm argumentado sobre essa explicação da criação divina. Certa
vez eu mesmo protestei ao meu professor espiritual, Baba Hariharananda: “Isso
não é justo; é cruel”, disse. “Porque Deus cria está criando essa complicação
? Se Seu desejo é ser descoberto, porque está Se escondendo tão bem que
ninguém consegue achá-Lo?”
Baba replicou: “Porque
não existiria criação se não fosse maya; não existiria problema. Se não
existisse o mal no mundo, não existiria criação. Todo o propósito de maya
é
para a alegria de Deus descobrir a Si mesmo, um alma por vez.”
Li literalmente toda escritura
de todas as religiões, e nunca encontrei uma explicação mais satisfatória
do que essa. Por outro lado, ainda parece insuficiente
para esclarecer o supremo mistério de Deus. Nunca iremos entender isso até que
nos tornemos Deu, até que acordemos totalmente para essa realidade. Felizmente,
Deus não nos abandonou totalmente na neblina de maya. Ele nos deixou dois
guias vitais pelo caminho: os sábios e as escrituras.
Escrituras são manuais para vivermos
uma vida centrada em Deus. Sábios são o exemplo vivo de uma vida perfeitamente
sintonizada com Deus. Um é a teoria, o outro, a prática. Se você seguir as escrituras,
sua vida gradualmente irá se tornar mais pura e mais divina. Se sua vida, também,
não está associada à de um sábio, santo, mestre, professor ou um guia espiritual,
as escrituras são unicamente palavras privadas de um significado mais profundo.
Palavras podem ser extremamente confusas, especialmente para a limitada inteligência
humana. Um buscador espiritual precisa de um professor que possa interpretar as
escrituras de acordo com a capacidade de compreensão do aluno. Nos
tempos antigos, o conhecimento da realidade era transmitido simultaneamente pelas
escrituras e sábios. Hoje, a maioria das religiões tendem a confiar exclusivamente
nas palavras escritas, perdendo quase que totalmente a conexão com as escrituras
do viver, respirar, trabalhar - os sábios. A tarefa do professor, mestre, guru,
tzaddikim,
starets,
ou o rabbi,
decresceu. A educação decresceu. Os professores tornaram-se mais e mais acadêmicos,
e menos e menos praticantes do trabalho que estudam. Aumentaram o conhecimento
dos comentários e memorizaram as sagradas Escrituras, mas não compreendem-nas
pela suas próprias experiências. Como resultado, virtualmente, nenhuma religião
atualmente ensina as escrituras como deveriam ser ensinadas. As instituições e
a hierarquia dos padres, acadêmicos, e especialistas preenchem seus papeis na
sociedade, mas não transmitem o conhecimento direto de como encontrar Deus. A
Busca Insaciável de Naren
por um Professor Verdadeiro
Madre Teresa escreveu uma linda carta: “Deixe-nos aprender
a ser como o Senhor Jesus, que ficou trinta e três anos em silêncio e iniciou
Seu ministério com quarenta dias de silêncio, e Ele, agora, ensina através do
silêncio, após ter completado Seu ministério na Terra”. Essa observação resume
a humildade de um mestre verdadeiro. Espiritualidade não diz respeito a exibir-se,
ser popular, ser esperto, inteligente ou bem relacionado. Diz respeito a alcançar
o silêncio profundo onde a sabedoria eterna desabrocha, e é distribuída gratuitamente
para todos. Precisamos aprender como exercitar nossa discriminação espiritual
para que assim possamos encontrar o verdadeiro mestre. Muitas vezes as pessoas
encontram um ser realizado, um grande santo, um mahatma (“grande alma”),
e nem se quer a reconhecem. Aconteceu no tempo de Jesus, aconteceu com Buda, Rama,
Krishna, Guru Nanak, e incontáveis outros. Cada grande santo realizado foi mal
compreendido por causa de estudantes imaturos, devido ao ego. É nosso dever, como
dádiva divina, aprimorar nosso intelecto para que possamos desenvolver esta discriminação
espiritual. Não deveríamos nunca aceitar um guru com fé cega. Todos vimos o resultado
da fé cega ou extremismo. Um guru sempre deveria ser testado, e alguns testam
seus gurus, mais do que outros. Não aceitei meu professor, Paramahamsa Hariharananda,
por muitos anos.
Um jovem chamado Narendranath, ou Naren para ser mais curto,
era muito rebelde em sua juventude, e andou de professor em professor indagando
a todos, não importando a qual religião pertenciam, sempre a mesma pergunta: “
Você viu Deus?”
Invariavelmente, respondiam, “Não, mas posso falar-lhe sobre
Ele e Suas maravilhas ...” Naren dizia, “Não, obrigado.” E ia embora.
Naren foi perguntando e perguntando até que cruzou com
uma pessoa que disse: “Sim, claro. Eu O vi tão claro como você. Não, para dizer
a verdade, isso não é totalmente verdadeiro – Eu O vi mais claramente do que vejo
você.” Esse era o grande sábio Bengali, Ramakrishna Paramahamsa. Naren ficou admirado
que alguém ousasse dizer isso com tamanha autoridade e ficou profundamente perturbado
com a resposta.
Primeiro não aceitou Ramakrishna. Amava-o como pessoa, mas
não aceitou-o como guru. No início constantemente criticava-o, insultava-o, divertia-se
às suas custas, ridicularizava-o. Chamava-o de um homem emocional, patético, cheio
de ilusões, sempre chorando por sua Mãe Kali. Naren era muito orgulhoso de sua
bravura intelectual, de sua própria racionalidade. Assim mesmo, sentiu-se atraído
por esse homem, embora não compreendesse porque. Sua mente racional se rebelava
violentamente contra esse santo, mesmo que seu coração fosse magnetizado por ele.
Um dia Ramakrishna abriu uma pequena janela na alma de Naren.
Aparentemente isso aconteceu num dia comum. Muitos discípulos estavam sentados
à volta de Ramakrishna quando este chamou-o: “Por favor, sente-se comigo no sofá.”
Enquanto Naren estava sentado, Ramakrishna, muito como quem não quer nada, esticou
sua perna e tocou o corpo de Naren com seu pé. Imediatamente Naren entrou em
samadhi. Fundiu-se com a suprema realidade, Naren perdeu toda a consciência
de mundo. Ramakrishna retirou seu pé com um sorriso no rosto. Lentamente, Naren
voltou à consciência ordinária. “O que você fez comigo? Por um momento não sabia
quem era,” chorou Naren . “Você é um mágico? Nunca mais faça isso comigo."
Mas esse era o princípio da transformação de Naren. Depois disso, rapidamente
começou a mudar. Queria saborear novamente essa realidade, então, aprendeu a meditar
e atingir estágios elevados. Por causa desse incidente, combinado com um serviço
devotado ao seu mestre, o jovem Naren, mais tarde, desabrochou como o famoso Swami
Vivekananda, o pioneiro da yoga e Vedanta no Ocidente.
Sábios e Santos
ekam sat viprah bahudha vadanti
“A Verdade é uma, o sábio fala Dela de várias maneiras.”
- Rig Veda
Sábios têm falado sobre Ela através de duas vias principais:
sua fala (a teoria), e suas vidas (a prática). De fato, uma raramente existe sem
a outra. Apesar de alguns sábios escolherem permanecer absorvidos em completo
silêncio, suas vidas ainda falam vários volumes a respeito do sagrado.
Algumas distinções precisam ser feitas entre o atual significado
de “santo” e “sábio”. Santos são “pessoas que estão sendo trabalhadas”, que dão
inspiração aos outros para que desenvolvam uma qualidade que os santos exibem
perfeitamente em suas vidas, como a caridade, devoção, tolerância, perdão e outras
coisas mais. A maioria das religiões têm seus próprios santos, alguns dos quais
mostraram poder de cura e outros milagres. A Igreja Católica Romana tem um processo
muito complicado para elevar certos membros à categoria de santos. O primeiro
passo é a beatificação, depois passam séculos de sindicâncias e investigação antes
do estágio final de veneração. No Hinduismo “santo” pode ser um titulo dado automaticamente
a monges de certas ordens, ou o título pode conotar uma honra dada pelos discípulos
a seu mestre, ou ao contrário , dado por um mestre a um discípulo escolhido. O
judaísmo é uma interessante exceção, aqueles que seguem a fé judaica são normalmente
hesitantes em chamar alguém de santo. Viver uma vida pia é alta prioridade, isso
impõe conhecer e seguir restritamente os muitos mandamentos do Torah e do Talmud.
Elevar alguém ao status divino é o menos importante.
Sábios, por outro lado, são seres perfeitos em permanente contato
com a fonte divina, que voltaram completamente todos os aspectos de suas vidas
para Deus. Não manifestam meramente uns poucos atributos, eles abdicaram
de existir por eles mesmos. Passaram por uma completa transformação. Não são uma
lanterna, tornaram-se o fogo. Suas posições na vida são irrelevantes em
relação a sua posição espiritual. Podem ser reis (como Janaka, Krishna, ou Solomão),
monges (como Buddha ou Mahavira), ou cavadores de trincheiras (como Baal Shem
Tov).
Conhecimento direto
de Deus é a única medida verdadeira para se medir o estado de sabedoria –
não conhecimento teológico, influência política, piedade, martírio, visão, profecias,
atividade missionária ou evangélica , reformismo social, demonstração de milagres,
ou super poderes. Indivíduos não deveriam ser categorizados como sábios somente
por sua capacidade de produzir milagres. Como pode ser argumentado, alguns poderes
psíquicos podem ser observados em várias pessoas de tempos em tempos.
O plano criativo de Deus
precisa de ambos, sábios e santos, para estar completa. Santos
inspiram por expressar uma qualidade divina, enquanto ao mesmo tempo mantêm sua
humanidade fundamental. Esse é um elemento crucial, uma vez que seres perfeitos
e avatares estão muito longe da realidade do dia-a-dia da massa em geral.
Graciosamente, santos ainda podem cometer graves erros. Sábios (e místicos),
por outro lado, são guias para os mais avançados buscadores espirituais que desenvolveram
o desejo de erradicar completamente todo traço de sua natureza humana, e realizar
completamente sua divindade. Eles atuam com um modelo a ser seguido por
seus aspirantes. Esses buscadores espirituais estão prontos para mergulhar completamente
na realidade de Deus. Estão prontos para matar qualquer traço de animalidade que
resta neles, para que possam completamente manifestar sua divindade. Sábios são
para todos, mas seus ensinamentos mais preciosos, e sua sagrada presença é principalmente
para o beneficio de um grupo de almas em particular.
Responder à questão:
“O que é um santo? O que é um sábio? O que é um místico?” é difícil. Examinando
a vida de centenas deles, finalmente encontrei uma bela definição dada por uma
grande Mãe sábia da Índia, chamada Ammachi: “Um
sábio não é o mesmo que um santo. Um santo é uma pessoa que aspira pela
realização de Deus, e que atingiu um alto grau de pureza da mente. Experimenta
a Presença de Deus, mas ainda não é um com Ele. Ainda tem que trabalhar pela Perfeição.
Porém, um sábio é alguém que alcançou a União com a Suprema Realidade e estabeleceu-se
permanentemente nessa consciência. Tais sábios, são considerados austeros no sentido
de não serem frívolos. Em outras palavras, são sérios. São centrados em Deus.
Mesmo que façam brincadeiras, vão ter um propósito por trás delas, conduzir pessoas
à Deus. Nem induzem à luxuria. Eles não têm nada a ver com a luxuria. Mesmo que
vivessem em um palácio, para eles, seria o mesmo se estivessem na sarjeta, por
que não têm consciência do corpo como nós. Têm somente a consciência do Ser ou
Deus. Esses sábios austeros são livres de ira e desejo.”
Assim,
no Bhagavad Gita, 5:20, existe uma descrição de um sábio: “Ao
redor de um sábio austero, livre de desejo e cólera, aquele que subjugou a mente
e realizou o Ser, irradia a paz beatífica do Absoluto Brahman.”
A diferença entre um sábio
e um santo, poderia ser explicada como a diferença entre conhecimento e sabedoria.
Podemos adquirir conhecimento de qualquer coisa, mesmo de coisas espirituais,
mas sabedoria está acima de conhecimento. Sabedoria pertence ao reino da supra-consciência
obtida em meditação profunda (paravastha, em sânscrito.). Conhecimento
pertence ao reino daquilo que fazemos no mundo agora. Por esse tipo de leitura,
podemos compartilhar conhecimento, mas nunca sabedoria.
Para adquirirmos sabedoria
devemos cerrar todos os sentidos, introverter a mente, e ir para um estado acima
dos pensamentos. Lao Tzu, o fundador do Taoísmo na China, deu uma bela receita.
Disse: “Para conhecimento, adicione um pouco todo dia. Para sabedoria, retire
um pouco todo dia.” Função
dos Santos e Sábios
Um erro muito comum e pegar a vida, o trabalho e as palavras
dos sábios como a Verdade absoluta. Uma vez que eles têm acesso a Verdade absoluta,
pensamos que tudo que dizem deve ser absolutamente verdade. Devemos compreender,
entretanto, que eles foram apontados por Deus para tomar conta de um grupo especial
de almas que serão atraídas por ele dentro de um contexto particular, em um determinado
lugar. Suas vidas, seus trabalhos e seus ensinamentos são direcionados a esse
grupo de almas, nesse determinado momento. Não quer dizer que estão vendendo verdades
parciais. Estão ensinando a Verdade eterna, mas estão adaptando-a à capacidade
de compreensão de um dado rebanho, que foi apontado para ele.
Por exemplo, quando ouvimos Neem Karoli Baba dizer que o caminho
da devoção é o único caminho para Deus, isso é verdade para aquele grupo. Se começamos
a comparar esse ensinamento com o de outro grande mestre, como Ramana Maharshi,
que diz que o único caminho para Deus é somente através da introspeção, eles parecem
contradizer um ao outro. Como podem estar falando da mesma Verdade? Mas estão,
no sentido em que seus próprios discípulos possam melhor compreender. Essa é uma
função muito importante dos sábios. Eles transmitem e adaptam a verdade eterna
para um certo tempo, para um certo grupo de pessoas.
Cada vida individual é uma metáfora para uma estória invisível
escrita por Deus. Na trama de uma novela, existem personagens bons e maus,
menores ou maiores papéis. Santos ou sábios interpretam os maiores papéis para
Deus. Cada aspecto de suas vidas é uma mensagem escondida para aqueles que tem
olhos para vê-la. Eles são escrituras vivas. Cada santo ou sábio também personifica
um atributo particular necessário para completar com sucesso a jornada espiritual.
Por essa razão, Harischandra
foi testado por sua verdade, Mira
por seu amor por Deus, Buddha
por sua renuncia, Gandhi por seu ahimsa,
Sita
por sua castidade, Padmapada
por seu serviço a seu professor, as Gopis por suas auto-entrega, Sabari por sua
paciência e Shams-i-Tabriz por sua convicção de que ele era Deus.
Como encontramos um mestre? Esse é o enigma da vida que todos
têm que resolver. Quando encontramos ele ou ela, deixe doarmo-nos a eles
como se nossa verdadeira vida dependesse disso, por que custou, para nossa alma,
milhões de encarnações para encontrar essa pessoa. Por eras, trabalhamos duramente
para encontrar alguém que possui a Realidade, que possui o eterno, e que
sabe como doá-La. Isso é o que é extraordinário sobre encontrar um mestre. Pessoas
que estão constantemente engajadas no “olhar vitrines em um shopping” espiritual,
não sabem o que estão perdendo. Pensam “quanto mais, melhor”, então colecionam
professores, e com isso coletam confusão. Muito embora, “sair por aí para fazer
compras”, é também, parte se seus karma; através dessa experiência, eventualmente,
vão encontrar seu professor.
Anandamoyee Ma, outra grande sabia da Índia disse:
“Um santo é como uma árvore. Não
chama ninguém, nem manda ninguém embora. Dá abrigo a todos que querem aproveitar;
seja homem, mulher, criança ou um animal. Se você sentar-se debaixo de uma árvore,
ela irá protegê-lo da inclemência do tempo, do tórrido sol, assim como da torrencial
chuva, e irá dar-lhe flores e frutos. Seja um ser humano que desfruta delas, ou
um pássaro que as aprecia, pouco importa para a árvore; seu produto está lá, para
qualquer um que chegue e pegue-o. E por último, porém, não menos importante, ela
dá a si mesma.
Como a si mesma? O fruto contém a
semente para novas árvores da mesma espécie. Portanto, sentando-se debaixo de
uma árvore você encontrará abrigo, sombra, flores, frutos; e em tempo apropriado,
você irá conhecer a si mesmo.”
Você se tornará
uma árvore.
Essa é a promessa de todos os mestres, e essa é nossa responsabilidade. Paramahamsa
Hariharananda disse muitas vezes: “Não vim aqui para fazer discípulos, vim para
fazer mestres.” E outras vezes diz: “Você deve tornar-se grande como Hariharananda.”
Sim,
é uma grande ordem, mas Deus espera que nos tornemos Sua semelhança.

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